Os pés desta noite

Os pés.
Na plateia.

Tento apreender quem é, na verdade, o entrevistado - famoso e (re)conhecido ele é.
Fico indecisa quanto à sua simpatia: sua fala arrastada já me dá preguiça...

Os pés, inquietos, roubam minha atenção.
De novo.
É um pé bonito, grande, que me faz lembrar de um outro par deles - os quais não pude admirar ou conviver o quanto gostaria!
A tornozeleira reforça a lembrança e atiça ainda mais minha curiosidade: esses pés têm um rosto?

Já não consigo ouvir o entrevistado...
A "preguiça" dele parece impregnar-se também em mim, dispensando minha pouca atenção!
O entrevistador bem que tenta reconduzi-lo, mas é a digressão do entrevistado que me reconduz: aos pés...

Vejo seus cabelos - ele têm dreads -, mas seu rosto permanece encoberto pela senhora ao meu lado.

Agora o entrevistado consegue captar-me: fala sobre a tortura de escrever.
Discordo e de novo ele me perde: eu gosto, não sofro...
Transpiro minhas ideias, na verdade. (Escrevo?)
O assunto agora é a reforma ortográfica, a dificuldade da língua portuguesa, blablablá...

Os pés têm mãos de dedos longos e unhas compridas - não gosto.
Tento romantizar: com certeza seu dono é músico, as longas unhas são para dedilhar as cordas do violão!
Os pés estão nus, mas agora os braços se escondem sob a blusa branca de malha.

Volto ao entrevistado: suas 'mineiridades' me prendem por um tempo...

O rosto, o cabelo, tudo se revela: decepção...
Voltemos e fiquemos com os pés.
E somente.
Agora se escondem e seu dono cobre-se de púrpura (?): desisto.

O entrevistado... ele é assim mesmo ou está sob efeito de...?
Ok, dou-lhe uma chance: seduza-me, envolva-me, cative-me!

Dos pés? Pertencem ao passado, definitivamente.

Surpresa agora: quem te chamou "Tia Anastácia"???
Ah, os segredos e melindres da política...

Então fomos...
E no final, afinal, ele me capturou: a música e à música, sempre!

E os pés calçaram-se, também.

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