Os barões e o papel no chão

Lá vêm eles. Na verdade, não vêm, chegam. Descem do ônibus, mesmo porque não poderiam mesmo 'saltar' dele! No tempo deles. Já não há pressa, apenas seguem o curso natural da vida. Não a vida que lhes resta, mas a que vivem. Cada um dos minutos, eles os vivem com vontade. Assim é que os vejo: fantasia minha? Se for, que assim seja! Vão caminhando, lentamente (?). Não, de novo, no tempo certo. Naquele que foi designado a eles.

Ela busca o braço. O apoio que foi seu toda vida. Antes, forte e vigoroso. Ainda é como ela o procura. O como ele o é. Ele chega mesmo a se empertigar para lhe oferecer o (agora) necessário apoio. Parece descuidado e distraído, mas seu olhar denota a força e a chama da autoridade, da virilidade que a conquistou.

(pausa)

Ela, ton sur ton, porém com simplicidade. O cabelo, cortado curto e totalmente branco, não indica somente os anos que se passaram. Revelam o espírito jovem e a ousadia na senhora elegante. Ela não tem medo de envergar a si mesma, em seu corpo míúdo e já um tanto gasto. Ela não se importa, mas cultiva uma discreta dignidade no vestuário.

Ele, apenas mais um velhinho que talvez jogue damas na Praça Sete. Nada de excepcional: apenas aquela boina tão comum ao estereótipo de senhor aposentado. Será que, ao contrário da companheira, se ressente da idade e da falta de agilidade? Seu rosto nada revela, exceto algum desprezo generalizado.

Atravessam, enfim, a rua. Vigio a avenida, a conferir se o ônibus já vem, me distraio. Quando percebo, não estão mais no meu campo de visão. Pra onde foram? De onde vieram? A área hospitalar sugere uma consulta, talvez... Preconceito. Foram à loja de bebidas, comprar um vinho ou almoçar no restaurante preferido na outra rua, por que não? Afinal, quem teria uma consulta entre meio-dia e uma da tarde???!

Lembro-me então dos primeiros barões. Lindinhos em suas cabecinhas de algodão globais. Elegantes e distintos. Ela, uma autêntica dama; ele, um gentleman, certamente. Inspiraram que chamássemos o casal que frequentava a confeitaria nos almoços pela mesma alcunha. Queríamos beijá-los, apertá-los, assim como fazemos com os bebês! Não podíamos, claro... Eu e todos os funcionários da confeitaria nos contentávamos em lhes ser gentis e usufruir daquele poucos momentos.

Quando os vi, senhorinha de bordô e senhorzinho de boina, pensei logo nos barões... seriam eles também mais um exemplar deste espécime em extinção? Fantasio, de novo, que sim...

Já a caminho de casa vejo o pouco educado (devia usar troglodita ou porco, mas desisti...)! Naquela esquina movimentada, ele esvazia a sacola com as compras e vai jogando o lixo no chão! Que contraste! Ainda há pouco os meus barões, agora isso... Nunca será um barão, coitado! Nem será retratado com doçura por mim ou por qualquer outro, provavelmente...

Volto à vida real. Ao coletivo, ao dia de calor, à preguiça... Cadê a poesia? Foi pra lata do lixo. E eu? Ah... espero por meu momento de baronesa... Quem sabe?

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