Para Maradona

Quando ele chegou, era o mais bonitinho - seu 'irmão' parecia um ratinho!
Lembro-me de apelidá-los de Pink e Cérebro, numa referência ao desenho animado de mesmo nome.
Mas eles sofreram transformações, quase mutações, cresceram. 
Ambientaram-se, conquistaram seus respectivos espaços, algumas vezes às custas de muita briga... 
Mas ficaram, afeiçoamo-nos a eles. 
Os apelidos perderam o sentido: Maradona e Luan, seus respectivos nomes - depois de algumas mudanças!
Irritava-nos muitas vezes Maradona, pulando o muro e depois não conseguindo voltar!
Quantas idas à casa da vizinha buscá-lo, após um devido castigo?
Ele não se emendava e a família revezava-se naquela tarefa maternal...
Estava sempre se esfregando, 'gritando' e grudando-se, quando era para sair!
Ai! - mas não são todos assim?

Então um dia ele não voltou.
Da casa do vizinho, de suas andanças noturnas ou aventuras perigosas - agora bem o sei!
Tentou, mas seu limite foi o portão, onde o encontramos...
Molhado, hirto, desfigurado.
Por que?
Seus miados podiam ser irritantes e sua educação deixava mesmo a desejar...
Mas era apenas um gatinho manhoso, que só queria ronronar e aconchegar-se nas pernas disponíveis - sempre!
Porque abusar de sua fragilidade carente e interromper sua liberdade?

Adeus, Maradona...

"Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram

O meu mundo era o apartamento
Detefon, almofada e trato
Todo dia filé-mignon
Ou mesmo um bom filé...de gato

Me diziam, todo momento
Fique em casa, não tome vento
Mas é duro ficar na sua
Quando à luz da lua
Tantos gatos pela rua
Toda a noite vão cantando assim

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás

De manhã eu voltei pra casa
Fui barrada na portaria
Sem filé e sem almofada
Por causa da cantoria

Mas agora o meu dia a dia
É no meio da gataria
Pela rua virando lata
Eu sou mais eu, mais gata
Numa louca serenata
Que de noite sai cantando assim

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás"

                                   (História de um gata - Chico Buarque)



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