Impropério
Ela não era dada a impropérios com frequência - pelo menos não ultimamente. Ainda mais naquelas circunstâncias: estavam se conhecendo, ela tentando "dar o melhor de si"(!). Não que isso fosse uma preocupação real dela, há muito estava praticando o desapego da encenação... Pra que se passar por alguém que de fato não é? Num cenário em que as máscaras físicas já nos eram necessárias, ela há muito optara por ser real. Mas não era do tipo que xingava, questão de princípios...
E tudo estava caminhando - literalmente - muito bem: embora não tivessem conseguido visitar o museu, nem comer os prometidos churros, o passeio estava agradabilíssimo! Fotos, contemplação, caminhadas... e como caminharam naquele dia! O destino final era a escada rolante, ops: roda gigante! O que estava acontecendo com ela? Desde que o conhecera, vivia trocando as palavras, embolando as frases! E, estranhamente, tudo era muito simples e natural ao seu lado, ainda assim.
Depois de finalmente chegarem à afamada roda gigante - que era linda! -, perceberam que a viagem tinha sido quase que em vão: a atração também já havia encerrado as atividades do dia: eita! E "eita!" não era um impropério, só uma interjeição bonitinha (que ele vivia soltando, aliás!). Mas que raio (!) de atraso era aquele que os deixava descompassados do mundo exterior e tão conectados consigo mesmos e um com o outro? (E as palavrinhas já estavam se aglomerando: ops, eita, raios: o que estaria por vir?)
Que encontro era esse que tudo era bom mesmo quando tudo "dava errado"? Não se renderam aos desencontros e riram mais, fotografaram mais... e foi então que ela se perdeu: ele a provocou, de novo, com o "Timão"! Aff... ele já não havia conseguido inspirar nela a simpatia pelo antipatizado clube e tudo o mais? Alto lá, senhor: ela continuava tendo um coração azul, cabuloso, ora bolas! Quando ele quis testá-la, mencionando que a morena e voluptuosa torcedora do seu time estava no cenário da próxima foto deles, ela soltou: "fôdas"! Tão espontâneo, tão enfático e, no entanto, tão inocente, o impropério os traiu, aos dois! Porque a intenção dela era ironizar aquela interminável apologia corinthiana, mas ele a tomou por ciumenta!
Ele, por ter sido pego de surpresa por aquele impensável "fôdas", interpretou o impropério como de origem competitiva, mas não futebolística: com certeza ela tinha ficado enciumada, pela figura corinthiana da bela morena - ela já não tinha dados sinais de possessividade antes?! Teria sido ele deselegante? Na dúvida, resolveu perguntar, a seco mesmo: "você é ciumenta?"
Ela se viu encurralada e confusa: de onde tinha vindo aquilo? Ela nem mesmo havia se dado conta da impressão que passara a ele, que de sua parte, estava convicto que o "fôdas" era puro ciúme! Ah! E agora? Se dissesse que sim, simplesmente, e sem saber o motivo da pergunta, estaria adentrando terreno pantanoso - se já tinha usado o termo agradabilíssimo antes, por que estragar tudo com um "ciúme fodido" que ela nem estava sentindo???
Tentou rastrear a origem daquilo e racionalizar: "Oi? Não sei, não me considero", foi o que conseguiu articular, assim de chofre. Ele não se deixou convencer e especulou, provocou e só então ela compreendeu: aaaahhhhh... era isso? Custou a fazê-lo crer que, às vezes, e por influência de um certo ator mineiro, ela soltava um "fôdas", junto e com acento circunflexo. Não o verbo flexionado com a partícula apassivadora se: apenas um impropério, no bom e já aludido mineirês, no qual ela estava iniciando-o...
Não, a resposta era não: a voluptosa corinthiana tinha sido apenas o veículo da sua antipatia pelo timão, nenhuma conotação mulherística na competição. Ele percebeu que tinha se traído, julgando-se objeto dos ciúmes dela... mas ela gostou de perceber o interesse dele nisso. E quer saber? FÔDAS! Ela se deu conta que até poderia sentir ciúmes dele, mas só como forma de sinalizar que ele valia cada palavrão que ela pudesse soltar! - nunca como sintoma doentio e inseguro de um sentimento.

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