Pastel de Tilápia
Chegaram na pequena cidade no horário do almoço, depois de uma viagem mais ou menos longa e algumas escalas. Finalmente ela iria ter uns dias de solitude compartilhada - com ele. Tinham tomado café na estrada: pra ela, um chocolate quente pra variar e aquele pão de queijo quentinho que a atendente colocava na vitrine na hora - afinal, ela era mineira, pra que negar? Pra ele, o infalível café com leite e um pão de queijo paulista também, uai! Ela sentiu falta de uma fruta, mas o hotel os aguardava no dia seguinte, com um desjejum real... Confiando nas publicações do perfil da cidade, esperavam encontrar um lugarzinho charmoso e sossegado para agora almoçar. Ledo engano.
Assim, não tiveram dificuldades em encontrar o hotel, que correspondia mesmo às descrições e às suas expectativas: ufa, ponto pra Santa Rita! Recepção calorosa e atenciosa, instalações elegantes, sóbrias e confortáveis. Ao abrirem a porta, depararam com a vista, que valeu o upgrade na acomodação que ela tinha providenciado: de tirar o fôlego! Ela logo pensou que o clima estava bem bom pra um mergulho e a piscina estava disponível todinha pra eles!!! Optaram por descansar um pouco, já que ela mal dormira no ônibus - como sempre.
Comeram do brigadeiro belga que ela trouxera das guloseimas de Natal, dormiram(!), tomaram banho e foram desbravar a cidade. Resolveram ir a pé mesmo, já que o tempo estava agradável pra uma caminhada. Ah... mal sabiam que todo aquele idílio iria durar bem pouco! A Rita parecia não estar disponível naqueles dias, mostrando que o ditado prevalecia, mesmo com as belas paisagens: "santo de casa não faz milagre"! Eles não captaram de pronto os sinais e saíram andando. Buscavam aquelas cafeterias charmosas, naquele reduto da tecnologia mineira, de paisagens magníficas que a internet prometera!
Caminharam. Entraram e saíram de ruas, desembocaram na praça, viram a igreja e a fonte, tudo muito lindo. E fechado. TUDO FECHADO. Anh? Era sábado, pouco depois das quatro da tarde: como assim??? Seria o resultado do feriado prolongado de Natal? E cadê as cafeterias, onde ficavam? Eles estavam no centro da cidade, daquela cidade fantasma! Ele, como bom paulista, não parava de falar em pastel. Frito. Ela só revirava os olhos... "será o Benedito?": não, a Rita!!! Não seria hoje nem agora que ela iria comer pastel frito! Ah, não!!!
As opções? Sorvete, açaí, sorvete de novo, bares de aparência duvidosa... NENHUM RESTAURANTE, LANCHONETE, CAFETERIA, BISTRÔ ou SIMILAR ABERTO! Ela estava em choque; ele piadista - e em busca de um pastel. Ela então avistou uma placa antiga, dessas luminosas, com o logotipo da Fanta Laranja: "vamos lá: olha a placa, Fanta, deve ser uma lanchonete ou bar"! Foram. Nem conseguiram enxergar o local, tal a iluminação excelente, assim como a disposição dos funcionários para algo que não fosse ficar escornados esperando o tempo passar...!
Ela queria morrer: que lugar foi aquele que ela tinha escolhido?! Nada do esperado, exceto pelo hotel e pela piscina, que eles ainda nem tinham usufruído! Olhou pro lado e viu um prédio antigo, uma espécie de galpão/armazém com uma rampa de acesso, com pessoas entrando e saindo. E aí eles viram: "pastelaria". Ele exultou, ela se rendeu: "vamos lá". Subiram a rampa e adentraram o "Mercado Municipal" - naquela altura das coisas, qualquer portinha já era um restaurante com estrelas Michelin!
Caminharam por entre os poucos corredores. Pastelaria, pastel, pastelaria, lanchonete vendendo pastel, sacolão, mercearia, pastel. Era alguma espécie de vingança do universo? Só porque ela não levara a torta de castanhas? Ou porque não tinham comido aqueles churros? Ele só(r)ria e oferecia a ela o prato do dia: "pastel?" - e ela só pensava como deveria ter levado algo além dos brigadeiros belga e do chocolate pra ele...
Depois de uma breve visita às magníficas instalações do mercado(!), ela avistou uns pretensos salgados, diferentes de pastel, num balcão. Da "Pastelaria Tradicional". Decidiu-se, rendeu-se ao inevitável. Seriam coxinhas? Bolinhos de chuva? Os clientes que saíam satisfeitos com a sacola cheia de pacotes engordurados foram o estímulo que faltava.
- "Ainda tem pastel, senhora?"
- "Tem, tô fritando!"
- "De qual sabor tem?"
- "De carne e de queijo"
- "Vou querer de carne" - murmurou ela, quase inaudível.
- "Então me vê um de carne e um de queijo" - respondeu ele, alegremente - "Não, dois de cada!" - ele, definitivamente, vibrava.
- "Qual refrigerante tem?" - ele estava em casa.
- "Tem Fanta, guaraná..."
- "Tem Fanta Uva? - ela já estava no limite mesmo, agora era rezar pra não passar mal, porque a santa, definitivamente, estava de recesso.
- "Tem sim!", respondeu a senhora, com satisfação, "mas é KS, da garrafinha"- foi o que ela ouviu; ele afirmou depois que a senhora havia dito Fanta Jota Efe. Algo de bom, pelo menos, pensou ela: "vou querer uma Fanta uva"; ele quis uma de laranja.
Quando a senhora trouxe as garrafinhas, já se desculpando porque a dela estava sem rótulo, foi a gota d'água - ou de Jota Efe, que era mesmo o nome do tal refrigerante! Ela mal conseguiu conter o ataque de riso durante todo o tempo que ali estiveram. Ele nem tentava disfarçar e fazia piada sem parar, enquanto a senhora fritava, célere, mais pastéis! Ela bem que tentou evitar constranger a pasteleira, mas por fim desistiu, o apelo foi forte demais: "o meu Jota Efe é Grapette"; "mordi o seu pastel de vento, por engano"; "o meu pastel é sabor sopa: e o seu?"! Ele não decepcionava e correspondia: "o meu pastel tem gosto de peixe, acho que é tilápia"; "meu Jota Efe tem rótulo, pelo menos"; "você vai querer mais?"
A senhora fingia ignorar o deboche, mas ela duvidava que era real. Paciência. E riso desenfreado. Por fim, estavam satisfeitos. E ela doida pra sair logo dali e rir mais e com vontade, assim que encontrassem uma farmácia e tomassem um antiácido! Como sempre e elegantemente fazia, ele foi pagar pela "refeição": "quanto deu?". Ela nem tentou se constranger, porque só estava com os cartões do banco e do ticket alimentação mesmo... "Seis e vinte", respondeu a pasteleira. E então, ele selou a experiência magistralmente, com a pergunta: "aceita cartão?" - na cidade fantasma, no Vale do Silêncio, reduto da tecnologia mineira. "Bom, se tiver trocado, eu prefiro", respondeu a senhora. E eles trocaram: todo o resto, todas as expectativas, por mais pastéis de carne. De Tilápia - aparentemente. E juntos.
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