Quitutes e acepipes
Necessitava de uma entrega. Entrega de sabores. Ou pelo menos dos meios de fazê-los chegar a ele, de ajudá-lo no preparo. Quisera partilhar mais, mas por ora era o que podia ser. A ideia povoava sua cabeça já há dias. Seria um presente. Porque os sabores necessitam estar presentes. Assim como as presenças há que serem saborosas – e saboreadas. Então viu uma receita, muito apropriada. Imaginou-o preparando aquele prato estilizado numa refeição... idealizou seu deleite, deleitou-se também. Ventilou-lhe as possibilidades, quis ser vento para sentir os aromas. Missão impossível, contentou-se com as benesses virtuais disponíveis. Foi imagem e voz e presença, naquilo que poderia ser. Puderam ambos sentir o mesmo sabor, ainda que ao longe: ela com alguma supressão, mas sem pesar. A realização e eternização daquele momento sublimava as faltas. Não houve excessos, nada ali sobrava. Numa imagem: um delicioso quitute. Em palavras: receita de afeto.

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