Presente de Natal
Chovia, como de costume. Ainda assim, ela insistiu em sair. O que é que esperava encontrar debaixo daquele mundaréu de água, senão solidão molhada? Calçou-se do principezinho verde e foi... No caminho, o inesperado: uma conhecida há muito esquecida e estranhos afetuosos, simpáticos. Trocaram conversas amenas e natalinas enquanto aguardavam uma estiada. Ou a fila do caixa no supermercado. Sente-se tocada e, com a diminuição de tanta água proveniente não se sabe donde - do céu? -, ela prossegue. Adentra o shopping e vai direto ao outro supermercado (quanta obsessão pelas compras!), em busca de seu objetivo, nada nobre... Trocas, compras e constatações depois, é hora de voltar à sua solidão úmida. Úmidos estão seus pés e calças, frios como seus membros e seu coração. Ele, o tão aclamado órgão, que nada faz além de pulsar, alheio à tamanha responsabilidade emocional! No afã de se distrair, ela vaga e divaga... Entra na livraria: seu paraíso particular! O atendente sugere uma conversa: ela devaneia, fantasia, viaja e pisa o chão: frio e real. Livros e letras e preços depois, hora de ir. Não há mais como adiar o encontro... com a chuva lá fora. Aguarda por um telefonema, uma surpresa, um milagre - o período é favorável... E ele vem, mas num contexto completamente inesperado, como devem ser as surpresas.
Ela oscila entre a facilidade, a comodidade e o racionalismo, o capitalismo. Vence a razão, ou o que se espera dela. Desce a rua rapidamente, vencendo a chuva e o vento que lhe batem no rosto e n'alma. Chega ao ponto: de partida, de chegada, de apoio. E reconhece aquela que seria sua surpresa, no ambiente criado à sua volta. Percebe que a calçada tem outra conotação: é o quarto, a cozinha de alguém. Lembra-se do assombro daquela colega quando, chegada do interior à capital, descobriu como as intimidades alheais podem tornar-se públicas e banais. Assim ela se sente, ao constatar o 'dono' daquele espaço. Alheio aos transeuntes e aos que se valem da marquise, como a 'princesinha', ele mexe seu cozido com um pedaço de pau (!) e devora-o. Ela percebe o quão fútil foi e é, seu mundo rui. Então é isso? Quando foi que os valores chegaram a esse ponto e os homens se tornaram meros animais movidos pelo instinto? O morador (será? ele parece que está apenas de passagem...) 'degusta seu jantar' e 'recolhe-se aos seus aposentos': um pedaço grosso de feltro faz as vezes de cobertor!
Ela se sente tocada e envergonhada. Não dura muito: o ônibus finalmente surge na rua escura, tentando ludibriar passageiros indesejáveis. Ela não o deixa escapar: entra, senta e lê seu livro. Tenta fazer com que o tempo passe logo: aguarda ansiosa o momento de chegar em casa, para saborear as delícias que comprou! Já se esquecera da crueza que há pouco testemunhara, seus pensamentos agora são sobre como o coletivo é velho e desconfortável. Não se dá conta de que a violência e a miséria cotidianas, impregnadas que estão na sua rotina, estão dentro de si. "A violência é tão fascinante..."
Ela oscila entre a facilidade, a comodidade e o racionalismo, o capitalismo. Vence a razão, ou o que se espera dela. Desce a rua rapidamente, vencendo a chuva e o vento que lhe batem no rosto e n'alma. Chega ao ponto: de partida, de chegada, de apoio. E reconhece aquela que seria sua surpresa, no ambiente criado à sua volta. Percebe que a calçada tem outra conotação: é o quarto, a cozinha de alguém. Lembra-se do assombro daquela colega quando, chegada do interior à capital, descobriu como as intimidades alheais podem tornar-se públicas e banais. Assim ela se sente, ao constatar o 'dono' daquele espaço. Alheio aos transeuntes e aos que se valem da marquise, como a 'princesinha', ele mexe seu cozido com um pedaço de pau (!) e devora-o. Ela percebe o quão fútil foi e é, seu mundo rui. Então é isso? Quando foi que os valores chegaram a esse ponto e os homens se tornaram meros animais movidos pelo instinto? O morador (será? ele parece que está apenas de passagem...) 'degusta seu jantar' e 'recolhe-se aos seus aposentos': um pedaço grosso de feltro faz as vezes de cobertor!
Ela se sente tocada e envergonhada. Não dura muito: o ônibus finalmente surge na rua escura, tentando ludibriar passageiros indesejáveis. Ela não o deixa escapar: entra, senta e lê seu livro. Tenta fazer com que o tempo passe logo: aguarda ansiosa o momento de chegar em casa, para saborear as delícias que comprou! Já se esquecera da crueza que há pouco testemunhara, seus pensamentos agora são sobre como o coletivo é velho e desconfortável. Não se dá conta de que a violência e a miséria cotidianas, impregnadas que estão na sua rotina, estão dentro de si. "A violência é tão fascinante..."
Comentários
Postar um comentário