A surpresa
Tinha cometido uma imprudência bem na volta do feriado prolongado: saíra para o trabalho no horário de sempre. Ledo engano, já que o trânsito não compartilhava das mesmas ideias para a segunda-feira. O resultado? Um engarrafamento colossal nas vias de acesso à rodoviária e, obviamente, no seu caminho! Desesperou-se com o iminente atraso, ainda mais por estar trabalhando naquele setor só há duas semanas. Fez o que podia, desceu do coletivo, tentou mudar a rota, entrou noutra condução – sem sucesso. Parecia mesmo que a ‘vida falava’, como dizia sempre uma voz amiga. Por que insistira em passar a noite fora, longe de casa, se tudo demonstrava que aquela aventura não ‘ia prestar’? Bom, pelo menos o filme valera a pena, a companhia também... Concentrou-se novamente no que faria para amenizar a situação, já que a tentativa de mudar o caminho não havia funcionado. Ligou para o trabalho e avisou ao colega do contratempo, rezando para que o atraso não fosse extremo. Quarenta minutos depois, ainda estava no meio do caminho, tendo ainda que ouvir as pregações evangélicas de um ex-viciado... Ai, Jesus! Resignou-se. Seu chefe não iria gostar, claro. Pior que isso: ele não diria nada. Quer situação pior do que quando não se sabe exatamente o que a pessoa está pensando, uma vez que ela não se manifesta? Procurou desanuviar a mente, lembrando-se que a semana estava apenas começando. Não era boa ideia que se iniciasse já com mau humor – pelo menos de sua parte. Como supunha, chegou ao trabalho muito depois do horário, exatos 60 minutos mais tarde! Calçou a cara e entrou no escritório. Passou pela sala do chefe e justificou-se, prometendo chegar mais cedo no dia seguinte, para compensar o atraso. Recebeu, por isso, um levantar de olhos e só. Gelou, mas manteve sua postura profissional. A manhã, já a meio, passou célere. Quando percebeu, já era hora do almoço. Pegou suas coisas e dirigiu-se ao restaurante. Encontrou um colega, mas optou por sentar-se noutra mesa – ele estava acompanhado por um alguém com cara de poucos amigos. Então, aconteceu: seu chefe surgiu e sentou-se em sua mesa, para almoçar com ele! Ele quase engasgou, mas fingiu naturalidade. O chefe então entabulou uma conversa banal, sobre o restaurante, a comida, alimentação e coisas do tipo – e sorria, ainda que timidamente! Percebeu como aquele homem escondia-se naquela máscara fria e distante, mas que no fundo estava mesmo era doido por umas gargalhadas! Tentou não forçar muito, mas manteve a conversa animada, até que se levantaram para deixar o restaurante. Encaminharam-se para a saída, mas ele ainda tinha algumas coisas para fazer no horário de almoço, então se despediu do chefe, que o aguardava para retornarem ao escritório. Caiu das nuvens e subiu a escada, rumo à locadora, para entregar o filme – o tal, da noite anterior. É, a vida pode ser surpreendente, pensou. E sorriu.
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