Pedacinho do Céu


Passou atenta a tudo, no colo da mãe. Seus olhinhos azuis esmiuçavam e esquadrinhavam o ambiente, as pessoas: tantas cores e formas e cheiros – o shopping! Com certeza não era sua primeira incursão àquele universo, mas as novidades eram sempre renovadas ali, impossível acostumar-se... E para sua pequenez de tamanho e entendimento, era um mundo de sensações. Sua figurinha não passou despercebida pela mulher na mesa da praça de alimentação, que captou e capturou aquele pedacinho de céu no olhar infantil. A pequena devolveu a atenção e iniciou uma muda conversa. A mãe enterneceu-se, incentivando a socialização da filha. A mulher registrou sua aparência: ‘Olhinhos de Céu’ tinha o cabelo fino e castanho, quase dourado; sua compleição era frágil, diminuta, lembrava o corpinho delgado das ginastas. Quantos anos teria? A mulher não saberia precisar, talvez dois. Vestia um macaquinho curto, camisetinha e sapatos tipo boneca, deixando livres e nus perninhas e bracinhos. Pegou a mulher de surpresa quando se virou, sorriu e acenou para ela – melhor momento da noite, relembraria depois. A mãe de menina bem que tentou acomodá-la na cadeira e dar-lhe o lanche. Olhinhos de Céu remexeu-se, levantou, tentou uma carreira, outras peripécias, mas foi contida pela tia que chegara. Olhinhos de Céu encontrou outras novidades e distraiu-se. A mulher percebeu-se embevecida ao extremo, refez-se retomando a conversa com a amiga. Outro amigo chegou, a conversa ficou animada, a mulher esqueceu-se dos Olhinhos. Quando deu por si, a pequena já havia partido. Lamentou ter perdido o derradeiro adeus. Mas aquele pedacinho de céu ficaria para sempre na lembrança da mulher, provocando o sorriso nos lábios. Como agora.

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