Oratório

Resolveu fazer uma caminhada: o isolamento estava acabando com sua sanidade - e com a de todo mundo, muito certamente! O tempo estava agradável, até um pouco quente... mas precisava tomar um ar, um sol na cara, gastar as pernas, cansar o corpo. E precisava também comprar umas coisas pra casa. Assim, uniria o útil ao necessário: uma caminhada com destino àquele supermercado, paraíso do consumo (!). Agora tudo era motivação para sair, tinha se (bem) acostumado aos passeios... Ainda que os tempos exigissem cautela, outros riscos já tinham sido assumidos: foi-se. O trajeto acabou por se tornar um retorno ao passado, à infância, a memórias esquecidas. Cada rua trazia uma lembrança, uma saudade. Sentia-se livre, saudosista. No topo do morro parou, descansou, virou-se. E a visão que teve, registrou: a igreja! Naquele momento, não atentou pras implicações que aquele registro traria. Só prosseguiu, no caminho. Foi célere nas compras, porque não cabia passeio no supermercado! Necessidades básicas e prementes satisfeitas, mimou-se: flores e chocolates. Cogitou uma mudança no caminho de volta, mas desistiu: era domingo, melhor manter o plano inicial. De novo no topo do morro, avistou outra vez a torre da igreja. Já tinha pensado em registrá-la de perto, na ida. Agora era imperativo. Vivia com ideias e palavras e textos pululando sua mente - ultimamente. E assim o fez: para além de sua retina, agora sua memória estava devidamente guardada. Uma memória por vezes apagada, mas que lhe pegou em cheio naquela tarde: foi ali, há quase 40 anos, que teve uma de suas grande escapadas! Ou avisos divinos, se assim preferirem. Lembrou-se então de como as caminhadas já lhe eram rotineiras, mesmo na tenra idade. Eram "14 quarteirões por dia", ida e volta, pra pegar o ônibus com a mãe. Era-lhe natural, uma aventura até - nunca reclamou cansaço ou enfado. Ao menos, que se lembrasse... lembranças... Naquele dia, desceu do ônibus e pediu à mãe pra atravessar a rua, num arroubo de independência. A mãe considerou perfeitamente aceitável e permitiu. Mas a vida tinha uma lição pra aquela dupla. Até hoje, ao lembrar o episódio, sem afetação mas com gravidade, não sabia dizer o que de fato tinha ocorrido. Só que, quando "deu por si", o motoqueiro olhava assustado pra seu corpinho deitado no asfalto, com a roda dianteira a uma distância fatal de seu pescoço! Que susto! Olhara pros lados, em sua estupefação infantil, tentando entender como e o que tinha acontecido: "eu não corri, mãe!" A mãe, prática que era, nem se abalou, tomou-lhe a mão e seguiu pra casa, evitando os curiosos que já se aglomeravam. A criança permanecia tentando explicar, lembrar se o chão estava molhado, se tinha casca de banana... algo que explicasse... e então chorou! Passado o susto, veio-lhe o pranto. A mãe, sempre diligente, tratou de minimizar a situação: "não foi nada!" E assim rumaram pra casa. E voltaram nos dias seguintes, por todo aquele ano, sem lembranças nem traumas. Só muitos anos depois é que a memória seria resgatada, registrada e grafada. Sem melindres. Com reflexão. 

Oremos. 

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