Um brinde! E o descobrimento de Portugal
Lembro-me do dia em que chegaram.
Mas não me lembro de esperar por elas. Eu tinha exatos quatro anos, um mês, dois dias. Antes disso, minhas lembranças resumem-se a alguns flashes na escolinha/maternal. Parece-me que eu as esperava, na verdade. Do dia exato da chegada, precisamente há 43 anos, não tenho recordações reais. Mas me lembro de meu pai me levar à maternidade e visitarmos o berçário. Ele me mostrara minhas duas novas companheiras, na incubadora - nasceram com menos de sete meses! Respondi enfaticamente que as via, sim, quando perguntada: deslavada mentira! Como uma criança de tão pouca idade iria distingui-las, naquele mundo de bebês recém-nascidos? Mas eu queria vê-las... eu já as esperava, ainda que não soubesse disso!
É claro que foi também um choque: eu era a única irmã de outros três irmãos, meninos. E, de repente, mais duas! Conscientemente não me lembro da ideia de rejeitá-las, mas provavelmente devo ter chorado, regredido em meu comportamento etc. Mas nada relativo à agressividade ou coisa assim... essas histórias, se existiram, foram suprimidas de minha memória e dos relatos familiares. Tanto melhor. Lembro-me de ter ficado feliz, porque agora eu tinha duas irmãzinhas pra mim! Duas novas amiguinhas pra brincar, pra eu cuidar, contar historinhas até dormir, amarrar os tênis pra ir à escola, dar a mão pra atravessar a rua, levar ao ponto de ônibus e esperar que fossem pra aula!
Quantas aventuras, desventuras, brigas e desencontros, risaiadas abafadas no quarto, cumplicidade. Minhas irmãs! E gêmeas - porém diferentes. Em tudo! E, no entanto, tão iguais: no amor. Uma mais emotiva, outra mais prática. Uma mais vaidosa, outra mais básica. Uma mais séria, outra mais alegre. Ambas, tantas vezes, impacientes e estressadas! Eu me senti e sinto, quantas vezes, a caçula perto delas. Nunca a irmã mais experiente. Mas, ainda assim, aquela que sempre esteve lá. E que, em alguns momentos, esteve distante. E, nos momentos que foram importantes, ter sido a maiorzinha, a mais velha. Na piscina do clube, nas calouradas da vida...
Nunca escrevi a elas. Não assim, não dessa forma. E hoje, anos depois, eu as brindo! Com minhas palavras. E também com minha caneca de água - ou suco! Porque as taças ainda são novas pra mim, estou experimentando... a descoberta de Portugal ainda me é recente, um tantinho assustadora até! Já providenciei minha própria taça, mas é uma experiência solitária, quase sigilosa! E o brinde não depende do recipiente ou da bebida: seu sabor é muito mais forte e não há taça que o comporte! Porque é de amor que falo. É de afeto que quero me embebedar e transbordar por elas!
O sábado se foi, chegamos ao último dia do primeiro mês do ano. Foram momentos intensos, festivos e emotivos. O domingo começa preguiçoso. Pra mim, começa emocionado e grato. Mais um ano juntas. Completamos nossos ciclos e caminhamos pros próximos. Desejo, sempre, que sigamos de mãos e corações entrelaçados. Desejo brindá-las com minha taça! E que venham muitos brindes mais e descobertas outras: de lugares em nós, de espaços em nossas vidas, de sabores diversos! Desejo tudo, sempre o melhor a vocês, "meninas"! Agradeço por terem vindo pra minha vida e que eu possa sempre ir ao encontro de vocês, onde e quando a vida nos permitir! Com ou sem palavras: sempre com o coração.

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