Passeio

Por aqui é passeio. Em alguns lugares diz-se calçada. Uma pesquisa rápida pela internet (!) informa que são coisas distintas. Não importa. Aqui vamos usar passeio, porque serve melhor ao objetivo. 

Seus dias vinham sendo intensos. Muitas coisas a resolver, assuntos pendentes e novos - criados. Sentia-se motivado e impulsionado a realizar, criar, produzir. Resolvera que aquele dia seria das pendências. Mas acabou passando na loja de utilidades e providenciando um novo assunto. Para depois, talvez mais tarde. 

Certificou-se que os óculos novos estavam corretos e rumou para a sede da associação. Esperava que aquelas fotos 3x4 bastassem para providenciar seu cadastro. Mas a atendente não pensava assim. Barrou-lhe as imagens inverossímeis, a declaração e o cadastro. Retirou-se resignado. Talvez no próximo ano. 

Lembrou-se que precisava de provisões para o dia seguinte e encaminhou-se para aquele supermercado novo. Naquele bairro antigo... deu-se conta que durante a semana retomara o contato com colegas do tempo de colégio, daquele bairro! Contou-lhes a novidade pelo grupo de mensagens e todos se animaram: outro assunto pra tratar... 

Orientou-se pelo localizador do telefone: estava bem perto. Só não contava com os morros - era a capital deles, afinal! Subiu, respirou. Mais um pouco, mais ruas. Seus nomes familiares... logo as lembranças o apanharam de chofre! 

Quantas vezes, há mais de 30 anos, não subira e descera aqueles mesmos morros, correndo, sorrindo e suando? Era o habitual dos meninos depois da aula: subiam pelas ruas do bairro, batendo campainha nas casas e fugindo, antes dos moradores atenderem! Não morava no bairro, então ele se sentia invisível... Já os colegas tiveram um ou dois problemas, até que abortaram o programa pós-aula. Sentiu saudades...

Por mensagens ia relatando aos colegas, distantes fisicamente, o caminho que fazia, suas lembranças, as mudanças na paisagem, dando pistas por fotos que enviava. Aos poucos a conversa foi enfim morrendo, deixando-o só com suas reminiscências.

Andou pelo passado, visitou as memórias. Todas boas. Eram tempos felizes, despreocupados. Não que sua transição infância/adolescência tivesse sido suave. Ao contrário. Passaria ainda por muitos dissabores. Mas aos 12 anos a vida era mais alegre! E naquela tarde, tudo que desejava era fazer aquela anamnese. 

Chegou enfim ao supermercado que tomara o lugar da famosa padaria. As edificações em volta já não eram as mesmas. Somente a catedral permanecia, agora reformada. Não se sentiu particularmente tentado a reflexões de natureza espiritual, mas ainda assim se emocionou.

Comprou rapidamente o que precisava e foi para o caixa. Tentou compartilhar com a operadora sua nostalgia, sem sucesso. Ela também, assim como a outra atendente, não pensava como ele: outra geração, outra cultura. Calou-se, sentindo-se o "tiozão". E era mesmo. Há 30 anos.

Como estava sem carro, chamou um pelo aplicativo, depois de escolher um bom ponto de referência. Enquanto esperava pra voltar pra casa, pro seu presente atualizado, reparou no passeio daquela loja. Era um piso novo, reformado. Tentou lembrar como era antes, qual comércio ficava ali - agora uma drogaria. A memória o traiu. 

Passeou por suas recordações, mas tudo de que se lembrou já não estava mais ali. Passou. Alheio ao seu passado, o passeio mudara. A vida passara. Porque, no final, tudo passa. Mas ele sabia que não estava ali a passeio.


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