A sereia da Pampulha - Cap. 10 / Final
Demorei um tempo pra me acostumar com a realidade: onde eu estava? Abri os olhos pra me dar conta: estava no meu quarto, na minha cama! Como assim? Eu estava na beirada da lagoa, tinha sentado no banco pra tirar um cochilo! Wanderley tinha ficado com meu telefone, pra registrar algo e/ou me acordar, no caso da esperada aparição! Olhei de novo à minha volta e não encontrei meu telefone... será? O que estava acontecendo, afinal? Faltava pouco pras 17h do dia 03 de fevereiro, uma quarta-feira. Naquele dia eu não estava escalada pra trabalhar presencialmente e tinha cochilado, depois do almoço – aparentemente. Estava com uma sensação estranha, que sempre me acompanhava quando tinha algum sonho intenso. Eu me lembrava claramente de tudo, de cada passo: tinha ido até a Lagoa da Pampulha, em busca de informações sobre a sereia! Tinha andado por ali, tentado entrar no parque, conversado com comerciantes, com os pescadores... até que pedi ajuda a um deles, Wanderley. E dormi em seguida. Teria sido tudo um sonho??? A sereia da Pampulha era criação da minha mente fértil, tão somente? Levantei de um salto, liguei o notebook e esperei impacientemente pra pesquisar na internet (!): nada! Não me conformava, era-me impossível crer que fora tudo um sonho, com algumas horas de duração, apenas! E onde estava meu telefone? Perguntas sem respostas... estava inconformada e intrigada. Ciente de que nada adiantaria ficar ali, parada, resolvi tomar uma chuveirada e sair um pouco. E o destino não poderia ser outro: a orla da lagoa. A decisão foi meio que involuntária, assim como uma intuição. Mas senti que precisava tirar aquela história, ou sonho, a limpo! Antes de sair, procurei mais uma vez pelo telefone, liguei pro meu número: em vão, desligado. A espera pelo coletivo e a viagem me pareceram eternas. Finzinho de tarde, paisagem linda: decidi me sentar por ali um pouco, pra acalmar minha mente – apesar de tudo. Escolhi um lugar mais tranquilo, mas não muito afastado, por questão de segurança. E então identifiquei o Centro de Saúde, um pouco mais à frente! Eu nunca tinha o visto, bem ali. Fiquei ressabiada. Estava digerindo aquelas sensações e descobertas, quando senti uma mão no meu ombro: “Ei, moça bonita! Que bom que você apareceu! Ontem você sumiu e seu telefone descarregou, não consegui fazer contato: esse seu carregador é diferente, né?” – disse um homem simpático, que aparentemente me conhecia! Eu não fazia ideia de quem ele era, mas sua fisionomia me pareceu familiar... fui me lembrando... Wanderley?! Arrisquei:
- Oi, Wanderley!
Pois é, que desencontro foi esse, né? E você conseguiu gravar alguma coisa? – já
fui logo perguntando, porque não quis que ele percebesse que eu não me lembrava
de nada! E era minha chance de descobrir se tudo não passara de um delírio
vespertino...
- Uai, gravei sim!
Tá tudo aí, se eu não fiz nada de errado: mas a bateria acabou bem na hora que
a sereia ia falar comigo, acredita?
- A sereia?! –
quase gritei! Então eu não estava louca, não era minha imaginação fértil, tudo
tinha acontecido de fato! O que se passara até eu acordar na minha cama naquela
tarde, sem nenhuma lembrança além do sonho?
- Foi sim. Ela
saiu da água bem na minha frente, sorrindo. Achei que ela ia me dizer alguma
coisa, mas o telefone descarregou e eu me atrapalhei. Aí ela piscou pra mim,
acenou e mergulhou de novo! Engraçado... agora que eu reparei: sabia que ela
era muito parecida com você? Só que seu cabelo é assim, curtinho... – disse
ele, me encarando.
Sorri pra ele. Eu
tinha entendido tudo. E então Wanderley arregalou os olhos, fazendo cara de
quem estava vendo assombração! Depois sorriu de volta e piscou pra mim, se
afastando... ele também tinha entendido! Eu só queria correr pra casa e ver
aquele vídeo, embora já soubesse seu conteúdo. Mas foi me dando aquele sono
incontrolável de novo... e eu sorri,
“lépida e fagueira”: lá vamos nós outra vez! ;)

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