A sereia da Pampulha - Cap. 9

Tirei os tênis e larguei mochila, bolsa e tudo o mais no gramado à minha frente. Minha vontade era deitar no banco, mas considerei arriscado, abusar da sorte. Fechei os olhos e quase que imediatamente apaguei! A última imagem que vi foi Wanderley, aguardando os peixes, com meu telefone ao seu lado - ele tinha entendido minhas explicações. E o melhor, tinha se disposto a me ajudar! Então dormi, mesmo: um sono profundo, pesado, no qual se sonha ininterruptamente. Foi assim. No início eu não estava entendendo direito. Mas eu nadava, submersa. E aí tudo foi ficando claro: eu circulava livremente em meio a muitos peixes, numa água de um azul profundo, como profunda parecia aquela... lagoa! Não sentia necessidade de respirar, era-me natural estar ali, debaixo d’água. Olhei pra mim mesma: tinha os cabelos compridos, inteiros, de um negro intenso, caindo sobre os seios nus e as costas! Da cintura pra baixo, meu corpo era de peixe: eu era uma sereia! O espanto não durou mais que um segundo, logo eu estava “lépida e fagueira”, à vontade na minha versão sirênica, como se me recordasse daquela identidade secreta! Algo que minha versão humana desconhecia, mas que me intrigava e me levara àquela investigação! Era isso, então! E eu nadava entre os peixes da lagoa, com desenvoltura e elegância. Já havia percorrido toda sua extensão e agora ia em direção a uma de suas margens, próxima ao Centro de Saúde. Embora embaixo d’água, eu sabia que havia um pescador por ali – Wanderley. E era chegada a hora da aparição: iria me mostrar a ele, naquela noite! Sabia que ele estaria atento e preparado pra registrar qualquer novidade e decidi que era o momento: eu precisava deixar vir à tona toda a verdade! Nadei até o ponto em que as águas iam ficando mais rasas e, lentamente, fui emergindo. A lua estava nascendo e seu brilho amarelado compunha perfeitamente o cenário para aquela revelação! Fui me aproximando, fazendo-me visível, exibindo meu tronco e parte da cintura, bem à frente de Wanderley! Ele não demonstrou surpresa ao me ver, parecia mesmo me esperar e estampou largo sorriso: “Finalmente, você veio!” – exclamou. Sorri de volta. E acordei. (continua...)

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